sexta-feira, 24 de Julho de 2009
faz-me falta alguém que me abrace à noite. não é que eu tenha isso em Santarém, mas em Santarém eu estou em casa, eu estou segura, sei lá. eu não me sinto mal aqui, mas acho que é compreensível que às vezes me sinta sem chão. brinco muito com eles, falo muito com eles, falam muito comigo, mas depois no que toca a tudo o que é mais íntimo, meu, não há ninguém.
aqui parece que uma pessoa vive dentro da caverna. quando sai do buraco, de manhã, ou à tarde, o sol até faz lacrimejar (sim, porque os quartos são numa espécie de garagem, onde também é a lavandaria, uma sala de reuniões, o economato, sala dos assistentes de direcção... e nada disto tem janelas. se bem que o não haver janelas nem é das piores coisas. às vezes à noite não há pão no refeitório, o que é óptimo para quem só janta e vive de noite e se deita lá para 5, 6 da manhã todos os dias).
cheira muito a mar, a sal, aqui, à noite. e o céu é tão estrelado, às vezes...
sexta-feira, 10 de Julho de 2009
ora, o farmacêutico não me queria vender aquilo sem receita médica, porque uma percentagem mínima do Dolviran se transforma em morfina. vicia muito, portanto.
nota-se logo que é homem e que não faz a mínima ideia do que uma gaja tem de passar com dores menstruais.
ora bem, vamos lá a ver... eu estou com dores insuportáveis que não me deixam dormir, comer, ler, trabalhar, ou fazer seja o que for (há quem vomite, também, por acaso nunca me aconteceu, mas fico mesmo muito mal-disposta) e que não passam. tenho ali o Dolviran, a única coisa que faz efeito, mas corro um certo risco, por ter essa percentagem, que já não sei se é de 1 se é de 10, mas é pequena, que se transforma em morfina...
hum... escolha difícil...
e o mais cómico foi que o homem falava comigo como se eu lhe estivesse realmente a pedir só morfina. pois, eu tenho esta cara de dezasseis anos, convém que ele me alerte para a realidade dos factos, 1 ou 10% de morfina uma vez por mês, e mais um bocado ando a roubar para conseguir Dolviran. que perigo, sem dúvida.
terça-feira, 7 de Julho de 2009
confusões
- não! isso é CO2!
- CO2 é dióxido de carbono...
- ah! pois é! mas é qualquer coisa assim parecida!
- sim, o anidrido é SO2...
(o anidrido utiliza-se para desinfecção do mosto das uvas, antes da análise físico-química e da fermentação alcoólica, e das outras duas, se se derem.)
domingo, 5 de Julho de 2009
Adeus
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

